A ondulação estava pequena. Quase um mar chão. Mas nem por isso deixava de se sentir a bordo um agitar tão crescente quanto a agitação que vivia por dentro. Em baixo, no convés. Ou ainda mais dentro. Na emoção, na ansiedade e na excitação que cada um dos passageiros vivia naquele momento quase improvisado de vida. Aquele veleiro de dois cascos mostrava uma segurança que não transbordava das nossas caras ao abandonar a barra. Derivas em baixo. Velas içadas. E tudo quanto nos tinha levado até ali, tudo quanto era seguro, premeditado, decidido com tempo e com vontade, deixou de fazer sentido porque o mar tem as suas regras. Aceitar e tirar partido do vento que nos recebia de sudoeste fez-nos ir em direções que nos pareceram pouco naturais naquele momento. Ora para sul, ora para norte, num ziguezaguear pouco natural à nossa vista mas que nos fazia avistar o nosso destino cada vez mais próximo. E como era importante aproximar-nos do nosso destino naquele momento em que já só a sensação da chegada nos dava o consolo de quem reclama por águas mais calmas. Passámos a barra. Entrámos na ria. Largámos âncora. O ambiente estava calmo. A água gelada reclamava um salto mesmo dali para uma dimensão nova e profunda. Só mesmo o cheiro dos petiscos cozinhados a bordo nos fez querer deixar a água que nos abraçava e nos dizia que aquele dia ia exigir liderança, um propósito comum muito forte e a noção clara de que juntos estaríamos mais próximos do que o que nos levou, individualmente, até ali. Subimos a bordo. Sorridentes e com fome. Um apetite que os petiscos animaram, e um apetite para uma nova jornada, mais forte, mais presente, mais junta.
Os petiscos regados já tinham feito história. O sol ainda nos alimentava as canções que se faziam ouvir e nos desafinavam as vozes. A serenidade veio da pergunta do comandante: “aqui chegados, para vós qual é a característica mais importante que um comandante deve ter a bordo?” Agora sim, havíamos entrado em mar alto. Na viagem transatlântica. Afinal aquele barco já não era só um barco. Aquelas pessoas já não eram só quem as tinha levado ali. Os registos artísticos que o futuro um dia guardará como um dia maravilhoso passaram a ser o livro de bordo a que recorreremos no nosso crescimento.
“Empatia. Sim, é a empatia que o comandante tem que ter para estar lá onde estão todos os outros que estão a bordo e saber lidar com todas essas realidades, percebendo-as por dentro e liderando-as por fora”. Goleman diz-nos que “a investigação científica fala-nos em três tipos de empatia. A empatia cognitiva, permite-nos compreender como a outra pessoa pensa; vemos a sua perspetiva. Na empatia emocional, sentimos aquilo que o outro está a sentir. E a terceira, a preocupação empática ou cuidado, reside no âmago da compaixão”. A empatia surge assim como o leme de quem comanda. A sua capacidade humilde de sair do leme e percorrer todo o barco sentindo e pensando como os que por lá estão, ora a celebrar o encontro de frente com o vento que lhes cria vida no rosto, ora atirando borda fora as entranhas num sofrimento umas vezes declarado outras disfarçado de sorrisos que não o são. Este aceitar largar o leme surge como um passo que o legitima ao leme.
Ainda ancorados na mesma pergunta, as velas em baixo e o motor silencioso, reinava a calma da construção criativa feita da partilha e da aceitação. O olhar profundo de um verde maior do que o mar abria espaço para que todos se entregassem sem julgamento e em liberdade, arriscando ir ao encontro do desafio lançado. A brisa que se fazia sentir deixou sair duas respostas em uníssono: “Autoconhecimento”. Como se se conhecessem todos por dentro, ofereceu-se a importância de quem comanda conhecer-se. Conhecer-se por dentro ao ponto de aceitar os outros e a bagagem que trazem a bordo. Ao conhecer-se, aquele que comanda, encontra-se verdadeiramente na sala de comando, no Cockpit. Ao saber-se, ao saber quem é, está preparado para saber quem são os outros, integrando-os e criando um força de comando maior do que uma liderança solitária. Conhecer-se faz emergir a vontade de rir que nasce do fundo do ser.
Nesta partilha ancorada no espaço que agora era de todos e para todos, os olhares ganharam profundidade e fomos sabendo que aquela jornada coletiva se fazia de entregas individuais. “Isso mesmo! Liderar é o que o homem do leme deve saber fazer!” É comandante, mas não comanda e controla. Cria espaço para a colaboração. Sabe escutar e dá espaço para a participação. Mantem-se curioso, permitindo o crescimento de todos a bordo. Evita a crítica e o julgamento permitindo o realinhamento. Uma liderança assente na motivação, no potencial, na confiança, na definição de intenção, nos acordos e na curiosidade. Estas podem bem ser as velas que os ventos da liderança agarram e enchem na construção da viagem transatlântica e que permitem enfrentar os desejos do mar, também ele bem-vindo da forma como se quiser apresentar. “Liderar é ser a referência e criar referências, liderar é criar líderes”, disse perante o olhar dos marinheiros que já não têm medo do leme.
O sol já baixava e entrava vindo das costas do nosso comandante, conferindo-lhe uma aura meio divina que havia ganho mais pelo seu silêncio e envolvimento do que pela sua imensa perícia em lidar com todos os detalhes, onde se incluem os deliciosos “mexilhões à marinheiro”. Sabendo bem que o seu papel é fazer avançar, eis que nos ofereceu a sua resposta, como sendo uma das respostas à pergunta que ele mesmo havia feito. A resposta inclusiva e envolvente das demais. Chamou-lhe: “Antecipação”. “A característica mais importante que um comandante deve ter a bordo é antecipar”. Para isso tem que se conhecer, conhecendo-se na profundidade das águas em que se move, é empático aceitando a forma descalça como nos recebe a bordo, e lidera, sabendo que é ele quem vai ao leme, o leme que partilha no espaço de crescimento dos demais. E sabe, porque o vive amiúde, que as pessoas que se entregam à sua liderança colaborativa libertam as suas entranhas ao ir, como quem vai cheio de ideias pré-concebidas, e regressam de mão calejadas pelo domínio das escotas e adriças que fazem crescer as velas que iluminam a sua viagem. “Antecipar”, remata, “é gerir melhor as adversidades e as equipas”.
Entrámos calçados e senhores da nossa bagagem. Saímos descalços e senhores de quem somos, individual e coletivamente. Prontos para mais uma onda. Prontos para mais uma maré.
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