Recentemente tenho falado sobre sinais de alerta psicológico em contexto organizacional, como forma de consciencializar e chegar às pessoas.
Tenho sentido que, muito mais eficaz do que partilhar sintomatologia e quadros clínicos, ou estratégias de prevenção, é partilhar testemunhos de vida na primeira pessoa e que abordam esses temas com realidade.
A voz da experiência autêntica, será sempre a voz sábia.
Não há forma mais fiel do que passar pela experiência de sentir a dor, o desespero, o corpo a gritar, e chegar a uma incapacidade inconcebível, posteriormente superada, para transmitir genuinamente, aquele que pode ser o futuro de muitos de nós: transtorno depressivo e/ou de ansiedade: Burnout.
São estes momentos ricos e poderosos em que a partilha na primeira pessoa, a resposta a questões colocadas que trazem consciência a tantas outras, são geradoras de um magnânimo crescimento e aprendizagem. A aprendizagem de que é possível ter um suporte que atenue a sensação de um sofrimento solitário. Este é um caminho que, é possível de se fazer e encontrar um bem-estar onde todas as dimensões do nosso ser físico, mental, emocional e espiritual possam estar em harmonia.
Exemplo representativo disso foi ter ouvido com o maior orgulho, as palavras do coach João Laborinho Lúcio na sua partilha, numa sessão aberta para os colaboradores de uma empresa que teve a iniciativa de promover esta ‘conversa’. Um tema que ainda é tabu, ali deixou de o ser. Ganhou vida. A vida dada às palavras, à história, e ao significado que a vida deve ter para todos, assim como a importância de a escutar. De nos escutarmos.
Este reconhecimento e a partilha do seu testemunho foi e continua a ser um profundo ato de coragem, contendo em si a assunção da vulnerabilidade.
É esta a beleza de ser humano. Viver num mundo que é todo ele vulnerável. Num mundo desquadrado que ganhou uma forma circular, onde o caminho de ida neste processo de cura e reconstrução, torna-se um caminho de regresso a nós próprios. “Cada curva é uma curva. Cada reta uma reta. Não importa o ponto de partida ou o ponto de chegada. O que importa é a viagem” (João Laborinho Lúcio).
O assumirmo-nos como vulneráveis, pressupõe a coragem de nos mostrarmos, sermos vistos, com a fragilidade da verdade. A nossa.
Sair do quadrado, aquele espaço protetor onde impera tantas vezes a vergonha, o medo que nos colocam perante o desconhecido e a incerteza de podermos não ser aceites, sendo vistos como fracos, corre o risco de ser um quadrado onde a porta para a recetividade de apoio, é a mesma para o dar. Será que o fazemos em equilíbrio? É importante saber receber, até como forma de poder continuar a dar, sem défice.
A vulnerabilidade reside em todos nós. E só os sábios têm a coragem de a mostrar e partilhar. É aqui que reside a genuinidade. Aquela que cria a conexão com e entre as pessoas. Aquela que, autenticamente humaniza.
Sermos humanos passa por promover esta humanização nas empresas, constituídas por pessoas. Pessoas que, estando emocional e mentalmente saudáveis, representam uma enorme força produtiva.
Quando atiramos uma pedra para um lago, reparamos nas ondulações criadas à volta onde a mesma se afundou. Pois num contexto onde alguém se sente a afundar, inevitavelmente as ondas que se formam impactam quem se encontra ao redor. Os climas de tensão alastram-se e propagam-se, muitas vezes de forma silenciosa e invisível, pela desconexão em que se sobrevive aos dias.
Daniel Goleman e Richard J. Davidson no livro Traços Alterados, referem que “O significado simbólico do contacto ocular, de pormos de lado o que estamos a fazer para nos ligarmos, reside no cuidado, no respeito e mesmo no amor que indica. Uma ausência de atenção em relação àqueles que estão em nosso redor envia uma mensagem de indiferença (…)”.
Antecipar é criar o futuro. Um futuro melhor, que começa agora. Neste presente. Um presente promovido pelas empresas, para os seus colaboradores. Vivido. Partilhado. Multiplicando-se.
Um bom clima de trabalho promove-se e salvaguarda-se, com atenção, compreensão, ausência de julgamento, escuta e acompanhamento.
Rich Litvin diz-nos “Escuta para o insight e não para concordares: A maior parte do tempo nós escutamos para concordar. Escutar para o insight é como ouvir música, onde te deixas levar por ela. Estás presente. A chave é escutar para o insight. O teu insight, não o meu”.
Num ambiente organizacional e num contexto onde as pessoas, as equipas estão interligadas e trabalham com um propósito comum, o insight individual cria a conexão. E é esta conexão a força representativa da proximidade. A que agrega.
Onde somos aceites como somos, e fazendo parte de um sistema que reconhece a singularidade de cada um, o coletivo torna-se mais forte, mais eficaz, saudável.
Reconhecer e identificar os sinais de alerta em nós próprios e nos outros, permite criar este sistema de suporte que promove a segurança psicológica.
Para esta ganhar lugar e forma de expressão, é importante que cada vez mais as organizações promovam um tempo e espaço dedicados fora do quadrado, com a mente e coração abertos, em união.
Numa posição de dar e receber. Escutar e dar-se à escuta. Uma escuta que ouse ir mais além. Uma escuta interna. A escuta que promove o autoconhecimento, pois uma pessoa que se conhece, e se liga a si, liga-se certamente melhor aos outros. Esta conexão é assim o resultado da autenticidade.
É gratificante como profissional na área da saúde mental, poder colaborar com iniciativas onde possamos identificar, prevenir, para gerar melhores pessoas, melhores equipas, melhores organizações e todos evoluirmos, como um todo.
Onde se sinta que tudo o que somos individualmente pode fazer com que, em conjunto, sejamos mais. Sejamos parte de algo maior. Um mundo aberto, autêntico. Desquadrado.
Alexandra Cordeiro
nowuknow – your journey of u