A vida é um constante processo de luta e superação.
É um caminho em que passamos por diferentes tipos de perdas ou empurrões que nos mudam a direção.
Seja qual for o tipo de perda que vivenciamos, somos sempre colocados diante da necessidade de experimentar o luto, confrontando-nos com a ausência de uma realidade que naquele momento deixou de ser o que era.
Embora não haja como evitar sentimentos intensos de vazio, aprender a entender e lidar com a dor da ausência, pode ajudar a conviver com ela e manter uma vida funcional, melhor adaptada a novas circunstâncias. É todo um processo de ajuste entre aquilo que foi e o que passa a ser. Caminhar nesta transição é algo muito pessoal, sendo vivenciado de diferentes formas por cada um de nós, tornando intransferível essa experiência tão própria e única.
A ambivalência de emoções, que podem corresponder a todas as cores num só dia, criam as mais variadas telas, sendo natural oscilar entre elas. Faz parte da nossa jornada familiarizar-nos com este processo.
Há momentos em que nos agarramos ao sofrimento como se estivéssemos a agarrar quem partiu. E sem nos apercebermos, aí ficamos, por dias, meses, anos, num ato ilusório de salvação e alívio de uma possível culpa por não ter feito, dito, ou dado mais e melhor. Numa posição de não deixar ir, não libertar. E não conseguir silenciar a mente crítica.
É um enorme e profundo sofrimento. Desespero. Peso. Vazio. Levamos tempo a aceitar que por vezes não há nada que possamos fazer para voltar atrás, ou evitar alguns acontecimentos. Há coisas que nos ultrapassam e forças maiores que nos mostram o que é tão difícil ver de outra forma. Mostram que não controlamos nada, a não ser as nossas escolhas.
Como vivi, como quero viver e aproveitar a vida que tenho. E com quem faz parte dela. Como escolho viver as mortes que passam pelos meus dias, sem que seja diariamente a minha.
A coragem de falar sobre a morte permite viver a vida de forma mais conectada com aquilo que faz sentido para cada um de nós.
Não significa antecipar o adeus à vida, mas sim torná-la parte integrante de uma passagem em si mesma. A partir do momento em que aceitamos a nossa finitude, podemos passar a aceitar essa realidade de forma mais leve, respeitosa e consciente, pois sabemos que a qualquer momento o que temos hoje, poderá mudar. Será que sabemos?
Teremos uma falsa sensação de posse em relação às pessoas que fazem parte da nossa vida?
Se amar pressupõe liberdade, aquela de ter por perto quem nos é importante sem aprisionar, numa livre vontade de estar, então em que medida praticamos o desapego nas relações que construímos? Nas conexões com os outros?
Seria certamente mais fácil na altura em que deixam de estar presentes, aceitarmos essa ausência. Por vezes sentimos que perdemos, sem nos questionar se realmente… tínhamos?
E se nos entregámos em amor, tempo e atitude às pessoas que dizemos amar.
O ‘ter’ as pessoas, as coisas, as situações como garantidas é uma falsa sensação de segurança, e é o passaporte direto para a ilusão, uma viagem cada vez mais distante do meu destino, da minha verdade, da minha consciência.
“Quantas coisas perdemos por medo de perder?” (Paulo Coelho). E quantas vezes nos perdemos por isso? O facto de não temer a perda, permite vivermos a vida de forma tão mais presente e livre, desapegada para fazermos e aproveitarmos o que é realmente importante. Libertos de qualquer sentimento de culpa por não termos feito, por não termos dito ou expressado. E assim conseguir viver de forma saudável com o que causa sofrimento.
É uma escolha, uma forma de estar, de querer passar pelos dias, atribuindo-lhes esta intenção. Uma viagem com significado. E que pode ser acompanhada, para que possa chegar mais longe, com qualidade nas vivências que partilhamos.
A morte, a ausência de quem amamos cria-nos um buraco negro, vazio, como se uma parte de nós também tivesse morrido. É uma dor que não se explica.
Neste vazio e neste nada, também pode caber tudo. Inúmeras possibilidades de criar e descobrir.
Este buraco pode ser um portal de entrada para outros mundos. Ou de saída para o meu mundo. Um mundo onde existe a oportunidade de aprender a viver e a conhecer o meu lugar perante a perda. Um lugar onde é possível alcançar uma continuidade nesta linha da vida, com superação. A psicoterapia oferece esse tempo e esse espaço para um encontro de significados e sentido.
Há sempre muito mais do que aquilo que conhecemos. Abrir a porta a um conhecimento diferente, é abrir os braços à esperança de podermos seguir e viver de outras formas.
“Negar o inevitável, viver como se a morte não existisse, não nos tem feito mais felizes”.
É na presença desta consciência que a morte não é o fim.
“Na verdade é a ponte para a vida”.
(Isabel Neto in Prefácio – A Morte é um dia que vale a pena viver).
Alexandra Cordeiro
nowuknow – your journey of u